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terça-feira, 14 de novembro de 2017

Com pimenta e Com Sabor


Quando você decidiu parar
Os planos que juntos fizemos
Eu te perguntei, mais de uma vez
Se tinhas certeza
Do que estavas fazendo
O teu frio olhar,
 Me rasgou inteira
Me jogou na ladeira
E não quis recolher
Ao menos os cacos,
Os pequenos pedaços
Daquilo que era seu
Você não quis saber.
Xingando ao pé do ouvido
Me abraçasse pra dizer
Vá embora da minha vida
Não quero mais você
Me largou sem saber
Que o vestido que usei
Na hora que te beijei
Fiz pra casar com você.
O meu vestido de cetim
Sujo de lama ficou
E eu não quis nem saber
Os motivos que teve,
Que deixou de ter
Só chorei por você
Sem entender o que houve
Levantei e parti
Nunca  mais eu voltei
Soube por um amigo
Que se arrependeu
E de desgosto morreu
Em um pedaço papel
Deixou o discurso escrito
E mandou me dizer
Eu te amo minha preta
Perdoe-me se puder
O teu amor joia rara troquei
Pela bijuteria de uma falsa mulher
E naquele momento que recebi,
O papel amassado
Das mãos do mensageiro,
 Eu até pensei em chorar por você,
Mas quando olhei a caixa,
Onde estava o vestido
Que fiz questão de guardar,
 Eu abri uma cachaça,
E num gesto de humanidade
Lentamente deixei queimar
A vela que acendi,
Por sua pobre alma
E preferi brindar:
-Ao teu inútil amor,
 _Ao teu penar,
 -Ao teu desgosto e a tua paga,
 Brindei a tua morte
E como se fosse praga
 Eu cantei e dei risada,
Nem por um momento,
Me permitir chorar.
Timtim
                          
Aninha Barbosa



Alfazema e Suor : Licor de Saudade



Saudade nem sempre é despedida,
As vezes é só um pedaço fora do lugar,
Saudade dói e o remédio é ir buscar,
O objeto do desejo, o olhar e o beijo,
A maneira de amar,
Saudade é bichinho arteiro,
Começa mexendo no cabelo,
Vez ou outra sai pelos cantos da cama,
Puxando a perna, a ponta da saia,
Lembranças com cheiro de alfazema
Da camisola suada, do teu sorriso
Se escondendo pra eu não te ver despenteada
Saudade é palavra forte,
Eu desconfio que nem exista,
Já que em nenhuma outra língua é falada,
Eu sinto saudade mesmo menina,
Era das vezes que dormia abraçada,
No teu peito meu esteio, tua boca minha morada,
Que se dane o que pensam desses momentos,
Eles só cabem a nós e aos nossos alentos,
Nessas noites frias de abril,
Noites que me lembro especialmente,
Do triste dia que você partiu. 

Aninha Barbosa


segunda-feira, 13 de novembro de 2017

PADRÕES






Padrões no meu corpo pra ser aceitável ao olho da sociedade
Caixinha de opiniões pra não ser linxada na rede social.
E quando serei quem eu sou de verdade?
Roupa da moda, adequada pra não pagar mico
Sendo diferente onde todo mundo é normal.
Varal de fotografias pra exposição,
Quem se veste bem, que se veste mal,
Quem tem cara de santa ou de ladrão.
Quem é playboizinho ou Marginal
Uma droga pra dormir, Rivotril legalizado,
Uma erva pra relaxar, logo sou crucificado
Protejam as árvores, a natureza é criação divina,
Se pra mim ela é o divino logo sou repreendida.
Que ordem e progresso são esses
Se a igreja se mete em minha vida
Decide se vou casar, se eu vou pro céu ou não
Quem é bom, quem é mal, tudo decido pela religião
Pacotes de gênero para entrar no padrão
Se é branco se é preto, homem ou mulher,
Preconceito disfarçado de opinião
Pacotes de ironias, pacotes de bolo de rolo,
Rolo de padrão, camisa de força, pescoço na forca
e o bobo da corte é o cidadão.


Aninha Barbosa

Foda



Foda é o dia que amanheceu
Já todo coisado.
Um pedido de vizinho
Um cunhado folgado
Foda é a cara dela
Quando chego do trabalho cansado
Vem me foder marido
Eu vou tento e levanto frustrado
Que dia foda esse que já amanheceu coisado
Nada me tira da cabeça que foi negócio pra cima de mim mandado
Foda, foda, foda e eu nem gozei no pau de ninguém
Mas na boca do povo, na lingua selvagem do povo
Não há quem se saia bem
Foda foda foda é querer meter e não ter com quem.
Aí é foda mesmo.


Aninha Barbosa 

PUTA E OUTROS ADJETIVOS




Já me gritaram PUTA
porque eu trabalhava de dia e estudava a noite.
Já me gritaram PUTA
porque eu trabalhava de noite e estudava de dia.
Já me gritaram PUTA
porque eu era solteira e desempregada.
Já me gritaram PUTA
porque eu era casada e trabalhava fora.
Já me gritaram PUTA
 porque eu fumo e bebo
Mas quando não fumava e nem bebia
era PUTA também.
Lembro exatamente quando soube que viraria PUTA
 foi quando minha mães separou do meu pai
e as pessoas disseram que ela era PUTA e eu seria também.
Me gritaram PUTA
 porque me separei do meu marido depois de muito apanhar.
Mas quando eu apanhava calada
me gritaram PUTA também.
Me gritaram PUTA
 porque faço poesia nos bares.
Me gritaram PUTA
porque quero dançar
Me gritaram PUTA
porque tenho cinco filhos que são criados por outro homem.
Me gritaram PUTA
quando eu o encontrei
Mas me gritavam PUTA
 antes de eu encontra lo
De tanto ouvir que sou PUTA
já deixei me ofender com isso.
Hoje me ofenderia se chamassem de submissa
Porque se eu fosse submissa não seria quem
Sou.
Eu sou mulher
Eu sou vencedora
E quer saber?
Não me importo com você.

Aninha Barbosa                       


A vítima Sou Eu









Alguns anos ela foi seduzida
Tudo era lindo em sua nova vida
Muito amor, alegria e atenção.
Era o recomeço a sua renovação


O fruto do amor nasceu singelo.
Aquela hora, tão bela e marcante
Veio junto com grande decepção.
O amor se quebrara em um empurrão.


Pedidos de desculpas e promessas
Assim foi começando a saga
Por alguns anos representada
A cada bofetada uma lágrima


Há oito anos ela foi estuprada
 Mais dois frutos desse amor chegava
Ninguém perguntou como ela estava
Se precisava de algo, ela gostava!! Diziam.

O pesadelo não teve fim com a fuga
A necessidade a impedia de lutar
Sem ver outra saída com os filhos
Ela mesmo com medo, teve que voltar.

Um dia não diferente dos outros
Mais uma vez por ele foi atacada
Caída já sem forças, com os filhos abraçada
Sentia a dor de gritar e não ser ouvida

Quem sabe por medo ou por omissão
Ninguém lhe socorreu, nem mesmo um cão
Despertou da dor já no fim da madrugada
A polícia foi chamada, não a viu e partiu

Ela estava novamente trancada
Com um pano quente nos pés para dor aliviar
Ele lhe olhando ternamente com o bebê na mão
No pescoço da criança uma faca apontada

Ela não teve outra opção a não ser calar
Queria estar com os cinco filhos, não podia falar
Amanheceu e como se nada tivesse acontecido
Ele chamou um carro e a encaminhou ao hospital

Cuide dessa menina levada, pulando São João
Ficou tão alegre que quebrou o pé e a mão
No mundo estranho de fora ela se desesperou
Gritava pelos filhos e assim se entregou

Ele vai matar minhas crianças me deixe ir embora
Os amigos chegaram e sem acreditar acolheram
Denunciaram e ele seria preso assim disse o delegado
Vão busca-lo isso precisa acabar, fique calma vamos buscar

Crianças em segurança, lares temporários
Amigos e novos irmãos se revelaram
A família mais unida se reencontrava
Todos veriam a luz do amor e da justiça

Sete anos se passaram desde a última vez
Sete anos se passaram na luta judicial
Sete anos pra ela que sorria voltar a chorar
Finalmente saiu a esperada decisão

O Réu foi condenado a 1 ano e 8 meses de prisão
O sorriso tão largo foi se desfazendo alí
Ao ler a continuação, ele teve pena suspensa
Por não oferecer perigo, responderia em liberdade

Liberdade para quem tentou matar
Liberdade para quem humilhou e bateu
Nunca entenderei a liberdade do réu

Porque dessa história a vítima sou eu.


Aninha Barbosa